Storytelling e corona vírus: como uma epidemia pode gerar histórias que unam as pessoas.

Desde sempre as narrativas são usadas pelos seres humanos para dar sentido a tragédias. Isso nem sempre e positivo! As vezes o sentido gerado gera efeitos negativos: pode causar pânico e/ou aumentar o número de mortes. Na Idade Média, por exemplo, a crença que epidemias eram castigo divino levavam as pessoas a se amontoarem para rezar na Igreja e isso aumentava o número de infectados. Uma fake news pode aumentar o pânico e /ou gerar preconceito. Ou pode gerar um otimismo maluco, uma vontade de potência enlouquecida que faz com que idosos saiam as ruas pois não acreditam no super poder do vírus. São efeitos negativos das narrativas.


Mas o sentido criado pelas narrativas também pode ser positivo e ajudar a combater a epidemia. Acreditamos no poder da fábula. E sabemos que é hora de cada um de nós aprender a criar narrativas que contribuam para que as pessoas passem essa crise da forma mais pacífica possível. Essa reflexão não se restringe a criação de filmes e series. Todos nos criamos narrativas diariamente e estamos criando narrativas diárias sobre o corona vírus na forma como contamos (fabulamos, reintepretamos) a nossos amigos as notícias da mídia.


Nossa proposta aqui, e aproveitar esse isolamento para pensar histórias sobre isso e aprender a usar as contingências naturais para criar histórias positivas. Esse texto não almeja ser definitivo, e mais o início de um diário interativo que você também pode participar, debatendo nosso cotidiano diante da epidemia.


Para isso e importante termos alguns princípios básicos que iremos tocar para criar nossas histórias:


a) O principal e respeitar a ciência. É um perigo acreditar em narrativas que desrespeitam a ciência. Teorias conspiratórias podem até ser legais. Mas se ela leva as pessoas a abandonar a ciência isso pode ser perigoso para a sociedade. Acreditar que o vírus e invenção seria acreditar que cientistas do mundo todo, independentes entre si, estão cooptados por alguma conspiração maluca. Acreditamos que a narrativa deve ter como princípio incentivar as pessoas a seguir as recomendações cientificas.


b) o segundo princípio e valorizar os personagens que tem consciência coletiva, que além de pensar no seu interesse, pensam no bem coletivo. E, em oposição a isso, desvalorizar / criticar / zombar dos personagens que mesmo em meio a tragédia coletiva continuam sendo individualistas.


Com esses dois princípios básicos podemos começar a criar histórias:


Drama ou comédia?


Como toda história o corona vírus pode gerar os dois gêneros.


Sabemos que a epidemia trará muitas tragédias pessoais nos próximos dias, pessoas morrerão e perderão seus parentes próximos. Saber contar as histórias se torna ainda mais urgente, pois ajudara a resignificar o sofrimento real. Isso dará ótimos dramas reais e longe de nos zombar isso. Serão histórias que merecerão o tom dramático.


Mas o corona vírus também tem espaço para situações mais cômicas. Tragicomédia, obviamente, mas ainda assim cômicas. A comedia não e apenas uma forma de zombar de tudo. É também o gênero dramático que nos ajuda a ver o cômico em cada um de nós. E observando um personagem obsessivo que podemos corrigir nosso próprio comportamento. Por isso, a comedia é também curativa.


Para criar comedia a partir de uma tragédia temos que entender que as crises são momentos aonde se explicita a essência de cada um. E ela fica explicita de forma caricatural. Uma cena muito famosa e muito usada e a queda de um avião. Nos instantes finais todos revelam suas verdades. O corona vírus está longe de ser uma tragédia desse tipo, aonde todos irão morrer. Mas as formas como lidam com a pandemia também revelara caricaturas de cada um de nos.


Alguns exemplos:


A) Imagina os que tem TOC (Transtorno obsessivo compulsivo) por limpeza. Eles já tem medo natural de germes, agora isso será acentuado. Isso obviamente pode dar ótimos personagens cômicos. Um dado interessante e que até quem não tem TOC de limpeza começar a ter hábitos de quem tem TOC. E, se não atentarmos, seremos todos reféns do TOC. Pode até ser uma nova epidemia. Repare no seu dia a dia. Esses dias eu comecei a reparar mais meus gestos. E como se, de um dia para outro, eu começasse a trazer para a consciência todos os gestos que faço. Coçar o olho agora eu percebo. E como coço o olho.


Compartilhar celular virou algo proibido. Quando eu tenho tosse, eu viro o rosto e/ou ponho a mão? Quantas vezes eu dou a mão para as pessoas, quem eu abraço, quem eu beijo? Foram dezenas de gestos involuntários que começaram a vir a consciência. E, obviamente, uma expansão da consciência. Mas se isso for somado com mania de controle (querer ter certeza que não pegará a doença) isso pode desenvolver TOC. A partir desse fato e possível pensar várias histórias. Por exemplo: um paciente antigo de TOC decide abrir um curso on line “como vencer o vírus do corona’ e fica milionário. Indo mais longe na sátira: ele cria uma seita aonde todos ficam em seus quartos e não tem mais contato.


B) Outro personagem cômico a ser criado é o empreendedor. Quem é obcecado por isso vê em tudo oportunidade de negócios.


São várias oportunidades que aparecem: álcool gel e máscaras caseiras para suprir a demanda. Comida que aumenta a imunidade. Isso ainda pode ser positivo.


Mas podemos ser mais radicais e perversos. Imagine uma galera que pensa em retiros de férias apenas para pessoas que testam negativo, para ficarem isolados do mundo e se divertindo em um ambiente exclusivo e não contaminado. Isso é totalmente possível de acontecer nos próximos dias, e seria um sci-fi distópico.


Lembro aqui do filme Marte Ataca, de Tim Burton. Uma comédia que mostra como cada um se adaptava a invasão de marcianos. E tinha os empreendedores que pensavam coisas como: esses marcianos vão precisar de hotéis adaptados! São pessoas que mesmo em meio a uma evidente tragédia conseguem ser práticos. Por um lado, isso e mega criticável eticamente, e querer aproveitar da tragédia para fazer negócios. Por outro lado, em muitos casos, isso é a fé do personagem, a única coisa que o impede de cair em depressão. Para muitos o dinheiro virou o sentido da vida e ele tem que tentar ganhar dinheiro até o último dia de vida. Em Marte Ataca é genial. O empreendedor oferece hotéis para os marcianos, mas eles o matam subitamente e sem dó.


C) Outros personagens que podemos abordar são os otimistas amalucados. Tem de tudo: Desde coroas otimistas que acham que é complô da china e vão em passeata arriscar a vida. Até o público nova de esquerda que são anti-vacina, anti-indústria farmacêutica e anti-pânico e mantem sua vida normal.


Esse é um público que se cuida, tem saúde ótima e bom sistema imunológico. Eles não têm medo da doença e acreditam que, mesmo se pegar, não será grave para eles.


E interessante como tem esses personagens dos dois lados do espectro.


Uma história com esses personagens pode mostrar como a questão não é apenas pessoal, é coletiva.


Um enredo simples é um jovem saudável que não tem medo do vírus. Continua sua vida normal e vai até rezar em cultos nova era para aumentar a vibração do planeta e combater o pânico. Ele pega o vírus, mas não se manifesta, pois seu sistema imunológico e forte. Mas ele passa para seu pai idoso que falecera. Esse e um enredo muito possível e que está acontecendo nesse momento. Contar uma história como essa poderá ajudar a todos se atentarem.


Bem, os exemplos são muitos e podemos continuar no dia a dia. No próximo artigo vou tentar falar mais da macro estrutura, das teorias da conspiração em torno do vírus.

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