Sonho e Delírio, Literatura e Ciência, Amor e Profecia com Sidarta Ribeiro e Ignácio Loyola Brandão

Acesse e assista: Link para a Live


Estou simplesmente passado com a live entre Sidarta Ribeiro e Ignácio de Loyola Brandão.

Essa foi uma frase que eu escrevi ao vivo, no meio da Live.

E mostra bem como assistir essa live me impactou.

Esse texto inaugura um novo gênero literário: a resenha literária de lives!

E uma curiosidade: esse texto foi, em boa parte, escrito simultaneamente à live, ao vivo. Uma nova experiência.


Antes de começar a descrever e analisar a live, vou abrir espaço para um prefácio.

Quem quiser pode pular e ir direto para a segunda parte.


Tenho visto tantas lives maravilhosas nos últimos tempos que tem me dado vontade de continuar o debate das lives para o texto escrito, inclusive como forma de convidar os leitores a assistir as lives.


Acho que muito conhecimento tem sido gerado e o acesso é possível a todos.

Podemos fazer, inclusive, uma curadoria das melhores lives, seria um projeto fundamental, para ir criando uma livegrofia, quem sabe, até um cânone das melhores lives da semana. Claro que pode parecer estranho criar um cânone de algo que está acontecendo ao vivo. Mas é disso mesmo que precisamos. De ideias estranhas para evoluir rápido. A utopia que necessitamos é a utopia criativa, que se reinventa a si mesmo. Durante a live, para citar um exemplo, Ignácio contou uma historia maravilhosa, mas concluiu com: “Mas o que eu disse aqui eu posso mudar daqui a meia hora, tá? Eu sou assim. Mas não é como Bolsonaro que muda de ideia. Eu apenas estou melhorando a história.”


Essa é a Utopia que precisamos: a utopia criativa.


De pensamento sempre reinventado em lives geniais que espalham conhecimento melhor que qualquer Pro-uni. Tal como foi, para outro público, a live da Anita com a Priolli. Tal como foi essa live entre Sidarta e Ignácio.


Utópico? Pode ser. Não achei tão difícil realizar. É só começar a fazer críticas de live que isso acontecerá. Parece pouco, mas pode ser a diferença, pois promoverá a síntese. Aliás, já fizeram ótimas resenhas das lives da Anita com a Priolli. Estamos só seguindo essa tendência.


Live como espaço criativo

Lives como essa são antes de tudo espaços criativos. Acontecem os debates, como mostrarei ao descrever a live, mas o participantes estão de boa vontade. Querem aprender. Estão disponíveis. E o oposto de como anda o ambiente de debate político.

Essa generosidade da live criativa torna o ambiente criativo. O amor entre duas mentes também pode gerar filhos. E dessa forma que quem assiste tem ideias próprias, gerando uma corrente criativa que tende a se multiplicar exponencialmente. Eu já imaginei várias atividades pedagógicas e sei que outros estão fazendo o mesmo. Isso é maravilhoso.

Pois todos seguem uma regra: ideia que surge tem que ser iniciada. Pode até ser abandonada, mas precisa ser iniciada. Todos temos urgência. É isso que uma experiência dessa pode oferecer ao seu público: uma criatividade que se concretiza.


É importante lembrar que a live entre Sidarta Ribeiro e Ignácio de Loyola Brandão foi magnificamente mediada pelos apresentadores xamãs Fernando Quintino e Daniel Brandão. A síntese que precisamos precisa de pessoas como Fernando e Daniel que, tal como os xamãs, fazem a ponte entre dois mundos, fazem a ponte entre dois pensamentos, efetuando a transdisciplinaridade sonhada por Morin e outros, e criando uma corrente de criatividade que inspira o público. Isso é uma boa live. Essa foi maravilhosa. E essa é a nova educação.


Apresentando a obra que a seguir analisaremos


Essa live foi magnífica, por um conjunto de fatores.


Primeiro pelo assunto: Sonho e Delírio, Literatura e Ciência no Brasil Real. Em certo momento transborda para Otimismo e Pessimismo. E tudo foi apresentado como um pensamento rápido, acumulativo e transcendente, tal como um bom sonho orientado, nada superficial, sempre embasado, entremeado de experiências de vidas dos dois, de forma aberta, escancarada, sem filtros, a verdade nua e crua, doa a quem doer, verdade, a rara e singela verdade, expuseram as fragilidades pessoais sem pruridos e, como um balance perfeito, tão e sempre aguardado por quem assiste, submergiram as qualidades dos dois, as formações, notáveis qualidades dos dois.


Segundo pelo currículo dos participantes: afinal, um encontro entre o Grande Neurocientista do Sonho Otimista e um Grande Ficcionista Humanista Distópico e o lugar ideal para surgir Utopias realizáveis.


O Sidarta contou da formação dele em casa, a mãe que muito o estimulou, começou a escrever cedo, já era um escritor antes de fazer ciência, lançou no ano passado livro importantíssimo "O Oráculo da Noite", narra como chegou até aqui.


Ignácio contou da infância em Araraquara, filho de um ferroviário, a mãe não completou os estudos, vidas simples, os amigos pobres, cenário que muito influenciou sua obra.


Terceiro pelo próprio nome dos participantes. Não dá para não citar que estamos tendo um papo entre o Sidarta (primeiro nome do Buda) e o Ignácio de Loyola, nome do fundador da ordem jesuíta que tanto influenciou nosso país, inclusive tentando materializar aqui a Utopia de um paraíso na Terra (as Missões). Nada melhor para sintetizar a tão necessária fusão entre Ocidente (Ignácio) e Oriente (Sidarta e todos os xamanismos indígenas). Claro que pode ser uma coincidência. Mas alguém aqui é do tipo que acha chique acreditar em coincidências? Sei que não. Sei que o leitor e como eu e adora perceber uma sincronicidade.


Ser no Dia de Corpus Christi, também e outra sincronicidade que faço questão de anotar a importância do corpo de Cristo na eucaristia. Também ser na véspera do dia do amor romântico, dois dias antes de Santo Antônio e do Aniversário de Fernando Pessoa. Para este que escreve é uma data ainda mais especial pois foi dia 11 de junho de 2017 que decidi abrir a Deus e Humor como uma Igreja (o facebook de hoje de manhã me lembrou disso, adoro essas memórias do facebook). E no Calendário dos Santos e dia de São Barnabé, apóstolo de Jesus, parceiro de Paulo. Barnabé para alguns é profeta em aramaico. Ou seja, era um dia que prometia desde o início. E acho que foi uma ótima data. Isso é importante para boas lives: escolher bem a data, estar sintonizado com o espírito do tempo. Isso é claro e , muitas vezes inconsciente. Mas um bom profeta revela o significado nem se for após o fato, pois interpreta os sonhos. A live de hoje foi um sonho e cada um de nós deve interpretá-la à sua maneira. O que estou fazendo, apenas, é mostrando a minha.


Debates


Feito esse prefácio grandioso mas necessário, vamos à nossa live.


Vou começar pela meio, este crítico decide por onde começar.

Quintino faz uma pergunta sobre a medicina psicodélica.

Sidarta faz um relato em tom de cientista especialista no assunto, a voz da ciência, a voz da razão, mostrando como a medicina psicodélica resolve muitos problemas e aumenta a felicidade, fala como um expert no assunto e de fato o é.

Ignácio resiste um pouco a ideia. É ótima pessoa, acha simpático. Aos 84 anos entra em um no assunto como se pisasse em ovos, não acredita muito que isso pode salvar o mundo.

Sidarta aqui decide intervir. É uma questão de crença e fé, crença na ciência, fé no conhecimento ancestral dos povos indígenas. Ele retoma a palava, convoca a aliança entre a ciência e os xamãs indígenas e explica como ela cura pessoas! Aqui o papo ficou reto.

E Sidarta usou então um argumento de grande efeito dramático:

“Se o Bolsonaro tomasse Ayahuasca toda semana, não seria assim”.

Inácio replicou na lata: “Pode dar todo ácido que quiser, que ele não muda”.

E Sidarta arrematou:

“Mas eu não falei ácido, eu falei ayahuasca!”


O Brasil mudaria se o Bolsonaro tomasse ayahuasca? Eu não tenho a menor dúvida!


Ele e todo o seu séquito de indivíduos que demonstram jamais ter buscado expandir suas consciências sobre o mundo a sua volta, o resultado é a obtusidade mental.


Isso foi uma das conclusões desta live.


O xamanismo pode curar.


Afetividade


Mas essa live não foi só feita de debates. Foi principalmente um encontro existencial e afetivo entre dois grandes pensadores que ainda não se conheciam. Isso é que foi a beleza desse encontro ao vivo.


Ignácio comove a sua audiência ao mostrar a beleza de sua felicidade. “ A vida aqui em casa está boa. Está gostosa. Estamos eu e Márcia juntos há 60 dias aqui e não tivemos nenhuma briga ainda”


Essa exposição da felicidade simples foi um grande momento da live.


Muito lindo também o momento que Ignácio conta que teve um aneurisma e pôde ver a imagem de seu cérebro: “ Que coisa linda é o cérebro humano. E que coisa linda foi eu ter sobrevivido”. "Isso é uma lição de um pajé branco", como o definiu Sidarta Ribeiro.


E o mais bonito e que depois daquela discordância inicial o nosso Mestre Pajé Branco de 84 anos acaba concordando e diz:

“Precisa dar ácido para eles (pros políticos). Essas coisinhas.”


Ao que Sidartha explica: “ Precisa expandir a consciência”

“Precisa aprender a ter consciência” , conclui Ignácio.


E agora? como será possível expandir a consciência de quem não a tem?


Profetizando


Em outro momento eles são convocados a falar do futuro, a profetizar.

Como vocês vêem o futuro pós pandemia?


Incitado a dizer algo sobre como vê o futuro Ignácio imaginou um mundo onde todos convivem a distância, tal como vivemos nos dias de hoje, em suas casas, vendo lives e trabalhando pelo computador. O futuro seria a distância. E Ignácio, com a dúvida dos grandes sábios, conclui: "E nem sei se isso é bom ou ruim. Isso pode reduzir a violência. O consumo, etc..


Foi genial a felicidade da aceitação. Aceitar nossos limites é uma forma de felicidade. É uma utopia real e nos ajuda a enxergar que é possível ser feliz até mesmo confinados. Não custa pensar no grande número de idosos e acamados, que mesmo antes da pandemia, sempre viveram confinados. Eles também tem que ter espaço na felicidade que buscamos e aqui se aponta caminhos.


É a sábia Utopia de um homem de 84 anos e de espírito aberto, ele tinha topado o desafio de fazer a live e teve de dominar a tecnologia. Vamos ser felizes em lives à distância. E é verdade. É uma possibilidade real de felicidade.


Já em sua resposta Sidarta vê futuros imprevisíveis que podem ser trágicos ou mega grandiosos e felizes. Ele mostra detalhes sobre como a verdadeira revolução da expansão da consciência já está acontecendo em lugares como as fronteiras da pesquisa científica de biologia e lives que todos nós assistimos diariamente. Por incrível que pareça, a revolução está acontecendo ao vivo.


Sidarta mostra também como mundo já evoluiu muito desde o seu início. A vida na era da caverna era mais dura para mais gente. As tribos defendiam os seus pares e travavam lutas diárias contra outros grupos. Nos últimos 200 anos a curva de ascensão da nossa sociedade foi acentuada e constante. Hoje temos condição de dar vida boa a todos. Estamos num grande impasse. Mas é o ponto de virada.


Uma informação importante: ele disse que o pesadelo representou o sonho prototípico, logo os sonhos originários foram pesadelos, o medo faz com que o homem sonhe, o pavor da morte é um estímulo para a nossa própria sobrevivência. Um alerta.Tome cuidado com o leão na caça. Hoje os sonhos são mais complexos e tem variações. Evoluímos, não temos mais sonhos pautados apenas pelo medo. Sonhamos também com o belo.


O sonho está no processo evolutivo de todos os animais. A capivara que durante o dia tem sede vai tomar água da lagoa e escapa do ataque do jacaré. A capivara sonha com o medo de ser devorada pelo jacaré que habita aquela lagoa. No dia seguinte a capivara escolhe outro riacho para beber água, isso faz com que ela sobreviva por mais tempo, as espécies prosperam evolutivamente a partir dos sonhos.


Essa reflexão dele me fez pensar: se o sonho do passado era o pesadelo de medo qual será o sonho que devemos buscar para o futuro? Uma hipótese que gostaríamos de ver: o sonho da esperança, oposto sonho do medo. Se conseguirmos superar o medo e sonhar com esperança, podemos mudar o mundo. E o fato é que, se olhar numa curva de centenas de anos, estamos a caminho. Só não podemos retroceder. Temos que ir, gradativamente, nos libertando do medo para voltar ao paraíso, ao sonho bom pode ser o fio condutor..


O interessante é que estamos no ponto de virada desse filme da espécie humana. E nos pontos de virada o desafio sempre é maior.


Passados quatro meses, podemos concluir que a pandemia do covid-19 é a maior tragédia de esfera global que a espécie humana já viveu. Mesmo a Segunda Guerra, mais violenta, esteve circunscrita a uma área mais localizada. Agora, pela primeira vez na história da espécie humana, uma doença atinge o mundo todo. Isso pode ser o gerador de uma nova consciência. Está acontecendo agora a grande síntese, que filmes como A Chegada (do Dennis Villeneuve) mostraram na ficção, com pensadores de vários países se unindo para chegar à fronteira do conhecimento.


E chegar a essa fronteira que permitirá o salto quântico que precisamos para mudar de consciência e construir uma nova vida para a espécie humana, mais feliz e integrada à natureza.


A solução está em nossa própria capacidade de diálogo.


Eu poderia me estender muito mais sobre a live, teve narrações fantásticas de histórias do Ignácio e aulas de autobiografia existenciais de Sidarta (que para contar a influência de Humberto Maturana, neurobiólogo chileno, narrou um trailer dos seis meses que viveu como hippie viajando pela América do Sul e, no Chile, foi à casa do Maturana e foi recebido e convidado para voltar para um período de estudos, naquele momento Sidarta sequer havia terminado a graduação, uma história de vida interessantíssima e deixarei essa passagem para o leitor/espectador que for assistir a live.


As perguntas que ficam


A conversa estava boa e os mediadores queriam mais, como acabar uma conversa tão interessante? Papo aberto, reto.


Em seguida o Daniel Brandão emendou uma derradeira pergunta, recordando uma passagem contada pelo Loyola no início da live sobre a professora do ginásio que criou o concurso de perguntas impossíveis de serem respondidas. Ignácio tinha perguntado à professora “Quem é o Pai de Deus?”.



Daniel propôs então: Qual a pergunta impossível que vocês fariam hoje? Uma pergunta de verdade.


As respostas foram as mais surpreendentes:

Provocado, Sidarta diz que gostaria de fazer três perguntas.

"No nível mais próximo, como é que a gente sai dessa enrascada no Brasil? É uma enrascada, a gente está num regime de exceção, piorando. Como a gente reverte?".

A segunda pergunta: "O que é o amor? A gente não vai sair dessa brigando, a gente vai ter de sair afirmando os melhores valores do ser humano.

E a terceira que para ele sempre foi uma pergunta teórica mas que há três meses ela passou a ser uma pergunta prática, depois de uma experiência transcendental em que ele tomou uma substância psicodélica extraída da secreção do sapo: "Quem é o pai de Deus?"


Maravilhoso.


Já Ignácio, tem a seguinte pergunta: "Haverá uma saída? Qual será essa saída? Como será essa saída? E para onde vamos sair? De que forma? O que vai prevalecer? O espírito? Mas o que é o espírito? A Alma? Mas o que é a alma? O que é o ser humano?

O que é o ser humano? Essa é a minha pergunta."


Ótimos temas para continuarmos esse debate. O nível das perguntas dá para ter uma ideia do nível que foi o debate.



Sidarta conclui com uma linda homenagem a Inácio: “ Ele é um pajé branco. Foi oracular. Me fez ver coisas muito antes” . E um chamado a todos nós” A alma brasileira precisa voltar a vicejar. Gratidão. Axé!”


E Ignácio também conclui:

“Eu acho que eu saio um pouco transformado depois da conversa. Quem somos? E o que temos que fazer aqui. Essa visão do Sidarta da Vida - e não de morte - foi muito importante para mim”.



Reflexão Pessoal


Para concluir vou abrir espaço para uma reflexão pessoal, que tive ao assistir a live.


Acho que serve para mostrar como eventos como esse inspiram novas ideias.


Eu tive essa reflexão totalmente ao vivo, e escrevi ao mesmo tempo que acontecia a live.

Foi no final, quando Ignácio, inspirado pela pergunta de Fabiana De Franceschi, contava qual foi sua inspiração para livro oracular Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o vento Que Sopra Sobre Ela, livro lançado em 2018, que anteviu o Brasil pandêmico.


Ignácio disse que foi a crise política. Foi vendo políticos corruptos afirmarem que são inocentes, que Ignácio percebeu que a palavra inocente perdeu o sentido.


Foi daí, da perda do sentido da palavra inocente que ele visualizou o Brasil de hoje. Um país onde bandidos nos controlam (em todos setores da política) e declaram, descaradamente, em rede nacional, que são inocentes.


Isso me fez imediatamente pensar:


Como o fim do sentido da palavra inocente nos fez chegar aonde chegamos?


Afinal, porque a palavra inocente perdeu o sentido?


Pois não existe mais justiça. E todos percebem que a justiça não existe.


Quando todos sabem: as pessoas perdem a fé na justiça.


E a justiça só existe se todos tiverem fé.


Ela nunca existiu totalmente, claro. Mas antes as pessoas acreditavam nela. E ela ia crescendo, chegando a cada vez mais pessoas. Pois a justiça e assim. Se você acreditar que ela existe, ela aos poucos realmente virá.


Mas quando as pessoas perderam a fé, a Justiça terminou definitivamente.


Sem Justiça perdemos o consenso. Ninguém confia mais no julgamento dos outros.

Viramos uma babel de línguas. Perdemos o diálogo. Terminou a Era da Razão.


Deixamos de acreditar uns nos outros. Achamos que o outro não é humano. É fascista. É o que for.


E isso resulta no que? Em conflito. Em fake news, em situações onde ninguém sabe o que é fake news, em que os políticos polarizam até uma questão que é relativa à saúde pública.


A chegada da pandemia foi o momento em que ficou claro para o povo: se nossos políticos não conseguem chegar ao consenso sobre como agir em algo tão básico como a nossa vida, nós estamos fodidos, com o perdão da palavra.


É o apocalipse. A revelação.


Essa revelação começou como o Mensalão que mostrou o sistema e todas corrupções posteriores. Continuou com o impeachment de Dilma, onde pudemos ver o Congresso Nacional ao vivo na televisão. Essa revelação continua com Temer, o vampiro do segundo escalão que deixou as sombras e veio à luz quando virou presidente, revelando o submundo sanguessuga. Continuou com Bolsonaro, os porões ainda sujos da ditadura militar, com cadáveres vivos insepultos. Prossegue com a tragicômica reunião ministerial de 22 de abril e piora a cada dia. É uma descida aos infernos. Se o Brasil fosse um ritual xamânico - e o Brasil é um ritual xamânico - seria o que a turma chama de momento da Peia. Do sofrimento. De consciência de nosso erros.


Pois não estou falando dos erros deles, dos políticos. Num ritual, numa roda xamânica, não existe eles. Só existe o NÓS.


Estou falando de nossos erros, de nossas faltas, de como abandonamos populações inteiras à própria sorte, deixando a miséria debaixo do tapete, excluindo pessoas, deixando em situação de penúria, sem permitir que elas evoluam como seres humanos.


Só os neopentecostais foram falar com eles, a elite pensante ficou presa ao Centro, inerte, osmótica.


Foram anos de exclusão, com o fundamentalismo reinando.


Mas agora o caos chegou e as pessoas de bom senso estão acordando. E existem pessoas de bom senso em todas as camadas sociais, do pobre ao bilionário, do intelectual ao operário. O bom senso não tem a ver com dinheiro ou inteligência. É apenas o bom senso.

Essas pessoas são os guardiões da civilização.


Claro que ainda tem aqueles que ainda querem acreditar. Eu tenho reparado que quanto menos bolsominions há, mais bolsominions eles ficam. É como se tivesse um nível de bolsomarice no ar que concentra cada vez mais, em menos pessoas. Eu ainda tenho amigos bolsominions, admito e sempre os aconselho: saia antes que você seja o último. o último vai sofrer muito mais. O mesmo acontece com os defensores do fundamentalismo de esquerda, que são mais segmentados, mas também muito perigosos.


Existe sempre esse caminho. Quem entra nessa acha que existe bom e mau, um deles é o herói e o outro e a vítima. Ainda não entendeu que são apenas todos doentes, não importa o lado que tomam, são fundamentalistas, seja de esquerda ou de direita.


Os fundamentalistas ainda existem mas diminuem a cada ocorrência de morte pelo coronavírus, a vida em primeiro plano, todos no mesmo barco não importa a cor.


Os que têm bom senso vão percebendo que ambos os lados extremistas são doidos e esquizofrênicos.


Se tentam conversar há anos e até hoje não conseguem é porque padecem da loucura, do arquétipo que eles mesmos criaram para si próprios.


As pessoas comuns serão nossos guardiões. E o homem médio, o guardião do bom senso. Para conversar com eles tem que lembrar que essas pessoas não queriam pensar tanto em política, queriam tocar seu negócio, sua família, seus amigos, seus amores, seu prazer.

E não porque elas são alienadas. Isso é só arrogância de intelectual.


Elas podem ser alienadas de política, mas são super antenadas em milhares de outros assuntos que interessam. Elas simplesmente não querem ter de pensar tanto em política. Mas a política começou a atrapalhar demais a vida delas. Além de tirar o emprego, agora a (má) política pode lhe tirar a vida. Elas tiveram que começar a pensar nisso. E se perguntam: Quem estará certo? Algumas acabam escolhendo um lado. Mas são pessoas práticas, de bom senso. Elas logo percebem que as lideranças de ambos os lados são meio malucas, a intransigência que leva à loucura. Cada vez mais pessoas pensam coisas como: Os políticos são todos ladrões, sem exceção. Os políticos perderam completamente a razão. Os malucos nos dominaram. Os malucos dos políticos nos perseguem, nos taxam, nos multam, e não fazem o mínimo que é zelar pela saúde, nem pela educação, não conseguem sequer dizer o que temos que fazer em meio a essa pandemia, batem cabeças, desdizem, contradizem, eles nos confundem, vivemos a ditadura da ambiguidade.


Surge assim uma população em busca de uma ideia radical e não dicotômica. Uma solução que não poderá vir do campo político, pois o povo não acredita mais neles. Uma solução que virá do onírico, do sonho, da profecia, da arte, da fabulação, da criação de mitos.

É isso que temos que construir juntos. Temos que criar lives que olhem pra frente, que busquem saídas, tem de haver encontros mesmo que virtuais, escolas onde aprendamos juntos. Precisamos de novos profetas que sirvam de oráculos para visualizar novos mundos. Precisamos de escritores como Fernando Pessoa que dizia: “ Tudo que eu quero é ser um criador de mitos”. Precisamos de novos mitos e para criá-los precisamos acessar a alma de nosso povo, para fazer a grande síntese e sonhem a Utopia Brasil. Pois somos pajés criadores de mundo e sabemos que na hora que a sonharmos juntos, ela se realizará.


Termino recordando uma frase do Ignácio que, perguntado pelo Sidarta como ele conseguiu antever tantos fatos caóticos em sua obra, Ignácio respondeu do seu jeito direto e amoroso: "Eu olho pela janela"


Obs: surgiu a ideia de quem assistiu a live ir ao Acre com o Daniel e Sidarta, tomar uma ayahuasca com nossos amigos índios. Eu já disse ao vivo que obviamente aceitei. E só organizar. Vamos fazer esse pensamento lá!


Obs 2, não resisto em comentar: Sidarta deu uma pista na live de como podemos acelerar a mudança de valores: oitenta por cento da população já se considera cristã. E um primeiro passo. Agora só precisa entender o que é ser realmente ser cristão. Será que é hora da elite pensante sair do pedestal e aprender a conversar como um verdadeiro cristão? Não basta apenas dizer ser cristão, tem de praticar o amor ao próximo.


Newton Cannito é fabulador profissional, criador da Cia do Divino que realizou a série de televisão Utopia Brasil, que será lançada em 2020.

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